Amo meu filho, mas odeio ser mãe”, confira relatos de mulheres que têm aversão à maternidade

Muitas mães amam incondicionalmente seus filhos, mas, ao mesmo tempo, odeiam ser mães. Elas sofrem discriminação por não mentirem nem esconderem seus sentimentos em relação à maternidade, mas pedem compreensão, empatia e principalmente desmistificação da maternidade.

Karen Cardoso é jornalista e se tornou mãe há quatro anos. Sua vida mudou completamente. Ela estava acostumada com viagens e diversão a qualquer hora. Com o nascimento de sua filha, sua vida mudou radicalmente. Ela se viu fazendo mamadeiras, trocando fraldas e passando noites em claro ao cuidar da filha, Maria Flor.

“A minha liberdade foi cerceada pela circunstância, dificultando até mesmo a aceitação inicial da minha gravidez. Isso, raras pessoas quiseram saber a respeito, afinal, na cabeça delas é assim:

“Se foi bom fazer, tem que ser bom criar” e as coisas não são bem assim. Eu não cometi um crime, foi um erro e o jeito que elas colocavam, dificultava ainda mais eu querer aquele serzinho que estava na minha barriga”, conta.

“Não nascemos mãe, nos tornamos. Uma função da vida, que a única diferença de um emprego é que se você abrir mão, é condenada. O pensamento imposto pela sociedade é que, não há como deixar de estar mãe na vida e isso vem desde a criminalização do aborto, até a mulher dar o filho pra adoção, ou deixar com alguém da família que tem mais condição de criar. A função mãe, essa profissão, não, eu não gosto. Para mim, a obrigação de criar alguém é completamente desgastante, injusta e principalmente porque é algo que você nunca faz por conta própria, tem sempre alguém para falar que você está errada, e até mesmo que não é boa mãe”, afirma.

Segundo Karen, alguns pontos devem ser desmistificados na maternidade e isso ajudaria as pessoas a compreenderem.

“Primeiro, o fato de acharem que não somos mais seres humanos e que deixamos de ter necessidades e vontades. Na verdade, temos ainda mais, pois, ficamos mais carentes, cansadas e necessitadas de apoio tanto no âmbito financeiro, sentimental e até mesmo sexual. Percebo muito isso quando viajo sem minha filha, vou a alguma festa, ou até mesmo quando posto fotos sem ela: as pessoas comentam, direta ou indiretamente, como se eu realmente só pudesse viver em função da maternidade. Em segundo lugar, é parar de romantizá-la.

Uma outra mãe, que pediu para não ser identificada, com receio que seu ex-marido a prejudique, atribui o fato de se sentir assim à falta de apoio paterno e também porque é julgada por vários motivos.

“Percebi que as pessoas cobram da mãe de uma forma diferente que cobram do pai. Desde grávida, todos me perguntam quem ele é, mas nunca o porquê de ter desaparecido e enfatizavam o quanto eu sou irresponsável por ter engravidado. Sou muito cobrada,  sempre há alguém para dizer que estou fazendo algo errado. Nunca nos oferecem ajuda e até amigos próximos se afastam. As vezes quero simplesmente dormir o dia todo e sou reprimida por isso, mesmo nos dias em que minha filha está com o pai”, diz.

A psicóloga Gabriella Lara explica que é possível não gostar da maternidade e ao mesmo tempo amar o filho.

“Ser mãe não está unicamente ligado ao amor, mas sim, às mudanças físicas, hormonais e sociais e isso provoca medo, angústia e dificuldades. Desta forma, as crises existenciais sobre “como eu serei mãe e mulher ao mesmo tempo?” podem ser frequentes. Existe uma cobrança interna e externa e o peso da mãe ter que demonstrar que é a “Mulher Maravilha” acaba abalando de alguma forma. A maioria passa por este processo de amor e ódio, porém, poucas se permitem sentir o segundo, reprimindo-o por acharem que isso irá interferir no amor, o que não é verdade. Portanto, é importante que a mãe deixe espaço aberto aos sentimentos que precisam ser vivenciados, amando os filhos, mas, acima de tudo, respeitando o ser humano que é”.

A repulsa à maternidade não deve ser ignorada, mas sim, tratada para não interferir na saúde da mãe nem dos filhos.

“Lembro-me de uma passagem que diz assim (inclusive, é uma instrução nos aviões antes de decolar): “Passageiros viajando com crianças ou alguém que necessite de ajuda deverão colocar suas máscaras de oxigênio primeiro, para em seguida, auxiliá-los”. Isso faz alusão ao fato de que, se você não estiver bem, não poderá ajudar o outro, ou seja, uma super-mãe é aquela que se cuida para que possa fazer o mesmo pelo seu filho”, explica a psicóloga.

Foi realizada uma pesquisa com algumas mãe, e ao serem questionadas se fariam diferente e não teriam seus filhos caso tivessem a chance de voltar atrás, responderam, sem titubear que não.

Concluiu-se que elas, apesar de não se sentirem bem na posição que estão e estarão, pro resto de suas vidas, não desistem da companhia e de fazer o melhor sempre pelos filhos.

Outra mamãe que se sente assim é a estudante Kellwya Machado, mãe de Katarina de um ano e oito meses. Ela sente a falta de compreensão vinda até mesmo da própria família.

“Ninguém parece entender o que é não querer ser mãe e ter que ser mãe. Não julgo e acho lindo quem sempre quis ser e se desdobra para poder organizar tudo e agradar os filhos, mas eu não sou assim e não me vejo sendo assim”, desabafa.

A irritação com a situação começou logo após o nascimento de sua filha.

“Ela chorava muito, principalmente por causa das cólicas e aquilo me irritava bastante. Eu chegava a deixá-la chorando e ia pra outro lugar em que eu pudesse me sentir “melhor” para voltar a ficar perto dela, enquanto minha mãe tentava acamá-la. Hoje, também no dia a dia, dar banho, arrumar comida, mamadeira, essas coisas, tenho preguiça por mim mesma e não consigo fazer muito, nesse ponto, por ela’’.

Kellwya conta ainda que já passou por momentos extremamente difíceis, mas se arrepende.

“Durante o puerpério eu até pensei em doá-la para uma amiga tinha acabado de perder sua bebê, aos 14 dias de nascida. Conversava com ela, as duas aos prantos, eu dizia que eu não estava conseguindo lidar com tudo e que, se eu pudesse, trocaria de lugar com ela ou até mesmo, daria minha filha a ela. Hoje paro pra pensar e vejo que foi um absurdo, porque a Kat é minha razão de viver e fico com peso na consciência de ter dito essas coisas pra uma mãe que perdeu a sua estrelinha”.


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